"Quando o capital imobiliário volta a cruzar fronteiras" - O Estado de S.Paulo - Cad. Economia & Negócios - Pág. B1.
Quando o capital imobiliário volta a cruzar fronteiras
Retomada dos investimentos internacionais mostra como cidades e países disputam capital em um mercado cada vez mais global
Um imóvel pode estar em uma cidade, mas o capital que financia sua construção ou aquisição pode vir de qualquer parte do mundo. Essa característica ajuda a explicar um movimento recente do mercado imobiliário global: no primeiro semestre de 2026, os investimentos internacionais em propriedades comerciais cresceram 56%, alcançando US$ 71,8 bilhões, segundo dados da JLL divulgados pela Reuters.
O avanço foi especialmente expressivo na Ásia, onde os investimentos quadruplicaram, chegando a US$ 19,3 bilhões. Na Europa, cresceram 31%, para US$ 39,9 bilhões. Cidades como Londres e Milão voltaram a atrair investidores estrangeiros, enquanto Singapura liderou o ranking global, com US$ 8,7 bilhões em transações. O movimento mostra que, depois de um período marcado por juros elevados e maior cautela, o capital começa novamente a buscar oportunidades além das fronteiras.
Mas o dinheiro não escolhe apenas imóveis. Escolhe mercados. E é nesse ponto que a experiência internacional traz uma reflexão importante para o Brasil. Na edição de 2024 do Global Real Estate Transparency Index, da JLL e da LaSalle, o Brasil ocupava a 42ª posição entre 89 mercados avaliados, na categoria “Semitransparente”. Na América Latina, o México aparecia em 37º lugar, enquanto Chile e Peru estavam em 47º e 48º, respectivamente.
Os dados ajudam a dimensionar por que transparência, segurança regulatória, qualidade das informações, infraestrutura e liquidez são atributos importantes para quem decide onde alocar capital, ao lado da localização e das características do empreendimento.
O Brasil tem escala, mercado consumidor, demanda habitacional e cidades com capacidade de absorver novos investimentos. Transformar essas vantagens em maior capacidade de atração de capital internacional depende, entre outros fatores, de avançar na previsibilidade regulatória, na transparência das informações e na qualidade da infraestrutura urbana.
Em um mercado imobiliário cada vez mais global, a competição não acontece apenas entre empreendimentos. Acontece também entre cidades e países. E quanto mais preparado estiver o ambiente de negócios, maior será a capacidade do Brasil de transformar essas vantagens em oportunidades concretas para o capital internacional.
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