"O desenvolvimento das cidades de 15 minutos e seus impactos no urbanismo brasileiro" - O Estado de S.Paulo - Cad. Negócios - Pág. B7.
O desenvolvimento das cidades de 15 minutos e seus impactos no urbanismo brasileiro
Como a integração entre usos, mobilidade ativa e infraestrutura urbana vem influenciando o planejamento e a valorização das cidades no Brasil
Por Gustavo Garrido*
A ideia de que os elementos essenciais da vida urbana devem estar acessíveis em poucos minutos a pé — o conceito de “cidade de 15 minutos” — deixou de ser tendência para se consolidar como diretriz concreta de planejamento urbano em diversas metrópoles. Iniciativas recentes em cidades como Paris, Xangai, Cleveland e Vancouver mostram esforços para integrar moradia, trabalho, comércio e serviços, reduzindo deslocamentos e estimulando a mobilidade ativa.
Mais do que proximidade física, esse modelo promove um estilo de vida urbano mais saudável, sustentável e conectado à escala humana. Distâncias curtas, diversidade de usos e deslocamentos a pé ou de bicicleta impactam positivamente a qualidade de vida e, como consequência, a percepção de valor imobiliário desses territórios.
Entretanto, usos mistos, por si só, não garantem cidades caminháveis. A experiência internacional mostra que o sucesso está associado a investimentos consistentes em infraestrutura urbana: calçadas acessíveis, arborização, conforto térmico, iluminação eficiente, controle da poluição visual, transporte coletivo integrado e mobiliário urbano de qualidade. Esses elementos, quando articulados por projetos urbanísticos e paisagísticos abrangentes, contribuem para a requalificação dos espaços e para a formação de “ruas completas”.
Outro desafio importante é a superação do zoneamento tradicional, baseado em setores monofuncionais, que tende a gerar áreas vazias e dependentes do automóvel. Cidades mais vibrantes combinam moradia, trabalho, lazer e serviços ao longo do dia, apoiadas por diagnósticos técnicos e uso de ciência de dados para orientar decisões regulatórias e fomentar novas centralidades urbanas.
Exemplos como Shenzhen e Tóquio ilustram caminhos distintos para a proximidade urbana. Em Shenzhen, antigas áreas portuárias deram lugar a distritos multifuncionais orientados à convivência e ao deslocamento ativo. Já Tóquio opera como um laboratório espontâneo de vitalidade urbana, combinando usos e escalas de forma orgânica e eficiente.
No Brasil, o conceito de cidade de 15 minutos começa a ganhar espaço tanto em políticas públicas quanto em projetos privados voltados à requalificação urbana e à sustentabilidade. Ao alinhar desenho urbano, infraestrutura e regulação, esse modelo amplia a qualidade de vida, impulsiona a valorização imobiliária e se apresenta como uma agenda concreta para o futuro das metrópoles brasileiras.
*Gustavo Garrido é arquiteto e urbanista, formado pela FAUUSP, diretor da ARCHSCAPE e presidente da AsBEA-SP (Associação Regional dos Escritórios de Arquitetura de São Paulo)
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