"Construir pontes, construir soluções: o papel da previsibilidade no mercado imobiliário" - O Estado de S.Paulo - Cad. Economia & Negócios - Pág.B1.
Construir pontes, construir soluções: o papel da previsibilidade no mercado imobiliário
Em tempos de instabilidade, segurança institucional e diálogo entre os atores são essenciais para o setor seguir contribuindo com o desenvolvimento do país.
Por Flávio Amary*
Se há um setor cuja vocação é literalmente erguer estruturas, é o imobiliário. Mas, em tempos de instabilidade, talvez a tarefa mais urgente seja construir pontes invisíveis: de diálogo, consenso e previsibilidade.
Previsibilidade é um dos pilares do mercado. Nenhum empreendimento nasce da noite para o dia. A concepção, o licenciamento, a incorporação e a execução de um projeto podem levar anos — exigindo estabilidade institucional, segurança jurídica e coerência regulatória. Sem isso, o solo onde se ergue o setor se torna instável.
Apesar dos bons resultados recentes, o ambiente de negócios no Brasil continua desafiador. Construtores e incorporadores enfrentam insegurança jurídica, mudanças abruptas em legislações urbanísticas, lentidão nos licenciamentos e disputas entre entes federativos. Além disso, o cenário nacional tem sido marcado por tensões políticas, volatilidade econômica e ruídos institucionais que afetam, inclusive, a percepção internacional sobre o Brasil como destino de investimento.
Mais do que enfrentar essas dificuldades, é preciso superá-las por meio de construções colaborativas. O setor imobiliário é, por definição, multidisciplinar: depende da convergência entre agentes públicos, privados, técnicos, jurídicos e sociais. O êxito de um projeto não se mede apenas pela entrega final, mas pelo quanto mobilizou consensos, integrou visões e respeitou os ritos coletivos.
É aqui que a metáfora das pontes ganha sentido mais amplo. O setor precisa — e quer — unir esforços entre iniciativa privada, poder público, Judiciário e sociedade civil. Sem diálogo e alinhamento, não há avanço possível. O Judiciário pode e deve considerar as consequências econômicas e sociais de suas decisões; o Legislativo, evitar legislações casuísticas; e o Executivo, atuar com clareza e compromisso com a segurança regulatória.
Outros países nos oferecem boas referências. No Canadá, na Alemanha e na Austrália, por exemplo, o ambiente urbano é construído sobre uma base sólida de segurança institucional, previsibilidade regulatória e respeito a contratos. Lá, não se eliminam os conflitos — mas se constroem mecanismos de solução, e não de travamento.
O Brasil precisa seguir esse caminho. O setor imobiliário não pede privilégios. Pede apenas regras claras, estabilidade institucional e respeito aos processos legais, para que continue a gerar emprego, moradia, tributos e desenvolvimento urbano sustentável.
Construir pontes, portanto, é mais do que metáfora. É missão concreta e estratégica. E que deve começar, justamente, por quem planeja o futuro das nossas cidades.
*Flávio Amary é presidente da FIABCI-BRASIL
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