"Moradia para a terceira idade será a próxima tendência do mercado imobiliário" - O Estado de S.Paulo - Cad. Economia & Negócios - Pág.B2.
Moradia para a terceira idade será a próxima tendência do mercado imobiliário
Até 2050, o Brasil saltará de 27 milhões para mais de 60 milhões de pessoas com mais de 60 anos. É urgente reinventar a moradia na longevidade com autonomia, tecnologia, bem-estar e suporte inteligente
Por Alexandre Frankel*
No mercado imobiliário, precisamos enxergar pelo menos 10 anos à frente. Além do longo prazo de execução dos projetos, trabalhamos com produtos perenes que servirão à sociedade por muitas décadas. Quem olha apenas para o curto prazo arrisca perder grandes mudanças socioeconômicas e até mesmo cair em obsolescência.
Estamos diante de uma das maiores transformações demográficas da história recente. Segundo o IBGE, nos próximos 15 anos, o número de pessoas com mais de 60 anos vai ultrapassar o de jovens com menos de 18 anos no Brasil. Essa mudança inédita vem acompanhada de novos desejos, prioridades e formatos de habitação. Famílias menores, com média de 1,9 filhos, envelhecimento ativo, aumento da expectativa de vida, que saltou de 60 para 76 anos, digitalização acelerada e aumento do custo de vida. Tudo isso exige uma nova resposta do mercado imobiliário.
Os prédios do futuro não podem mais ser analógicos. Precisam ser inteligentes, acessíveis, conectados e preparados para uma população que quer envelhecer com autonomia, conforto e segurança. A chamada “melhor idade” não quer mais ser tratada como exceção. É uma geração economicamente ativa, que movimenta mais de R$ 1,6 trilhão por ano no Brasil. Além disso, é uma população exigente, que valoriza qualidade de vida, mobilidade urbana, áreas verdes e acesso facilitado a serviços de saúde e bem-estar.
Essa realidade demanda uma mudança estrutural na forma como concebemos e desenvolvemos empreendimentos. É preciso pensar em espaços mais flexíveis, adaptáveis às diferentes fases da vida, que promovam convivência e bem-estar físico e emocional. O mercado que souber se antecipar a essas necessidades terá um diferencial competitivo relevante. Inovação, nesse contexto, não é um luxo — é uma exigência estratégica.
A pergunta não é se esse modelo vai se consolidar. É quando. E a resposta é simples: já está acontecendo. Em vários países, o sênior living já virou padrão, mas não dá para simplesmente copiar o que está dando certo lá fora. O Brasil tem realidades próprias culturais, econômicas e sociais, que exigem uma solução sob medida. O futuro da moradia não será desenhado com as lógicas do passado.
Vai ser construído por quem entende que inovação de verdade nasce da escuta, da análise de dados e da coragem de romper padrões. O caminho está traçado — e os pioneiros que souberem interpretá-lo terão um papel essencial na construção de cidades mais inclusivas, resilientes e sustentáveis.
*Alexandre Frankel é engenheiro civil, fundador da Vitacon e da Housi
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