"Otimismo (com cautela) no setor imobiliário" - O Estado de S.Paulo - Cad. Economia & Negócios- Pág.B1.
Otimismo (com cautela) no setor imobiliário
Mercado de imóveis segue em alta, mas é preciso monitorar as variáveis econômicas e políticas que podem impactar seu desempenho
Por Guilherme de Lucca*
A despeito das incertezas que rondam o cenário internacional e da mais recente elevação da taxa de juros por parte do Banco Central, o setor imobiliário vive um momento de grande otimismo em face aos resultados extremamente positivos verificados nos últimos 12 meses. Dados do Secovi-SP apontam seguidos recordes em números de vendas, assim como de lançamentos, e a consequente redução dos estoques a níveis jamais verificados – o que incentiva novos investimentos e o reforço da mão de obra contratada.
Mesmo com a perspectiva de estabilização da taxa Selic em patamares acima de dois dígitos até 2026, a leitura dos grandes incorporadores é de que isso não interfira de forma tão significativa no volume de financiamentos (que alcançou o segundo melhor ano, em 2024, segundo a ABECIP), nem nos preços médios de venda (que vêm se valorizando acima do IPCA, também de acordo com a instituição).
Os níveis atuais de inadimplência, aliás, estão entre os mais baixos já verificados – o que se deve, sobretudo, à política distratos implementada a partir de 2018, que trouxe maior segurança jurídica às incorporadoras, com regras mais claras sobre a desistência de contratos de compra e venda de imóveis.
Somado a isso, a desaceleração do dólar e o crescimento de fontes alternativas de captação, como a LCI, LIG e os FII, têm garantido o fôlego necessário para manter esse mercado aquecido e contrapor a uma (cada vez) menor captação líquida da poupança, que é consequência da elevação da taxa Selic.
Mesmo tendo em vista uma redução da atividade econômica a partir do segundo semestre, o cenário para os próximos anos é considerado profícuo para as atividades do setor, especialmente no Estado de São Paulo, que concentra o maior volume de investimentos imobiliários.
Ainda assim, o entendimento é de que essa conjunção de fatores, ora considerados positivos, possui variáveis que devem ser acompanhadas com muita atenção no decorrer dos próximos meses. A começar pelas taxas de juros, que precisam encontrar um patamar de estabilidade suficiente para estancar a pressão inflacionária atualmente verificada no país.
Eventuais mudanças na política fiscal do governo, sobretudo no que se refere aos fundings, também entram nesse cálculo, assim como questões externas, ligadas sobretudo aos Estados Unidos, China e Europa.
Portanto, é certo que o momento favorável vivido pelo setor deve ser aproveitado, mas com certa cautela diante de fatores macroeconômicos que podem vir a ser desafiadores em um futuro próximo.
Leia as nossas colunas!
* Guilherme de Lucca é vice-presidente do Comite Financeiro da Fiabci Mundial e vice-presidente de Gestão Administrativa Financeira do Secovi-SP
Retornar