"Novas demandas da sociedade moldam o setor imobiliário" - O Estado de S.Paulo - Cad. Negócios- Pág.B8.
Novas demandas da sociedade moldam o setor imobiliário
Com o aumento da frequência do trabalho presencial, o mercado de escritórios atingiu recordes de absorção nas grandes capitais, especialmente em SP

Por Adriano Sartori*
O mercado imobiliário brasileiro passa por uma transformação significativa, impulsionada pelo retorno aos escritórios, pela digitalização e seu impacto direto no setor logístico, e pelas novas formas de morar, com destaque para o mercado residencial para renda.
Segundo pesquisa realizada pela CBRE, com o aumento da frequência do trabalho presencial, o mercado de escritórios atingiu recordes de absorção nas grandes capitais, especialmente em São Paulo. Os dados mostram que 82% dos principais prédios da cidade têm mais de 70% de ocupação durante a semana.
As empresas estão aumentando gradualmente a frequência de uso do escritório para quatro ou cinco vezes por semana. Como resultado, a absorção bruta de escritórios na maior cidade do país atingiu 873.000 m², um aumento de 4% em relação a 2023, além de um crescimento de 90% na absorção líquida positiva, que corresponde à diferença entre as áreas devolvidas e as novas locações.
Um relatório do Office Busyness Index aponta que 60% das empresas nos EUA adotaram o trabalho presencial integral, chegando a 73% em Manhattan, impulsionadas por setores como tecnologia e advocacia. A tendência busca fortalecer a cultura corporativa e a colaboração, gerando oportunidades para o setor imobiliário e fomentando a criação de escritórios que priorizem ambientes de trabalho saudáveis, valorizando o bem-estar e a acessibilidade dos funcionários.
Dados da CBRE Brasil também mostram que a digitalização acelerou o crescimento do setor logístico, impulsionado pelo aumento do e-commerce. O mercado logístico segue com absorção constante, acima de 2.000.000 m² nos últimos cinco anos dentro de um raio de 120 km em São Paulo, evidenciando que a mudança no comportamento de consumo veio para ficar. Cerca de 47% do volume de novas locações resulta do e-commerce, um crescimento expressivo em relação ao total observado em 2023, que foi de 34%. A taxa de vacância atingiu o menor nível dos últimos 13 anos, encerrando o ano em 9,4%.
Observa-se também o aumento da procura por imóveis logísticos dentro da cidade, a chamada “logística urbana”, impulsionada pela necessidade de maior velocidade no atendimento ao consumidor final. Esse cenário reforça a necessidade de os municípios repensarem os processos de zoneamento urbano, considerando a escassez de terrenos disponíveis para essa finalidade.
As novas formas de morar estão redefinindo o mercado imobiliário, com a locação flexível e os espaços compartilhados ganhando popularidade, especialmente entre jovens de 25 a 39 anos. O mercado residencial para renda, conhecido como Multifamily — amplamente explorado nos EUA, com mais de 17 milhões de unidades —, ainda é incipiente no Brasil, com menos de 10.000 unidades prontas. São Paulo concentra cerca de 70% desse estoque, com uma taxa de ocupação de 94%. No entanto, considerando o grande déficit habitacional do país, é possível imaginar a atratividade futura desse segmento.
Por fim, o mercado de data centers vem ganhando destaque em nível mundial com o crescimento do uso da inteligência artificial. Nesse contexto, o Brasil também se sobressai, concentrando 70% da capacidade instalada da América Latina, impulsionado pela oferta de fontes de energia renovável, recursos hídricos e conectividade. Trata-se de um dos poucos setores que continuam atraindo alocação de capital de longo prazo.
Todos esses fatores demonstram como as novas demandas da sociedade impactam diretamente o setor imobiliário. No entanto, um dos desafios mais críticos para a evolução do mercado é a alta dos juros, que influencia o custo do crédito e pode desacelerar investimentos e novos empreendimentos. Diante desse cenário, é fundamental que o setor se mantenha atento às mudanças econômicas e regulatórias, buscando inovação e estratégias para continuar crescendo de forma sustentável.
* Adriano Sartori é presidente da CBRE Brasil, vice-presidente do Secovi-SP e fundador do Green Building Council Brasil

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