"Israel, a nação das startups" - O Estado de S.Paulo - Cad. Internacional - Pág. A18
Israel, a nação das startups
David Ben-Gurion, fundador do Estado de Israel, foi um ativista pragmático com alta capacidade de realização, e a palavra hebraica que define essa característica é bitzu'ist. O PIB per capita deste país é de US$ 51,4 mil, quase 7 vezes maior do que o nosso, e seu território, com 21,6 mil km2, é menor do que Sergipe.
Mas o que faz desta jovem nação com um pequeno território um dos mais importantes do mundo, quando o assunto é inovação e tecnologia?
A característica de grande parte do povo Judeu é representada pelas palavras bitzu'ist e chutzpah. A última, pode ser traduzida como atrevimento, insolência, petulância e arrogância.
Israel possui o maior percentual de gasto em pesquisas sobre o PIB e, como consequência, possui mais startups per capita, sendo algumas utilizadas em todo planeta, como o Waze e o Wix. As maiores corporações de tecnologia possuem centros de desenvolvimento no país, como Intel e IBM.
Aos 18 anos, mulheres e homens prestam serviço militar por dois ou três anos, e essa é uma experiência valiosa para suas vidas. Deliberadamente, o IDF (Israel Defense Forces) mantém um baixo percentual de oficiais de alta patente, o que aumenta o nível de responsabilidade e autonomia que os jovens oficiais assumem.
No decorrer dos treinamentos, vivenciam o trabalho em equipe e liderança, que são habilidades essenciais também no contexto empresarial.
Depois do período de confinamento no exército, é comum que os jovens passem meses viajando e, quando voltam, estão mais maduros para escolherem sua trajetória acadêmica e profissional.
Conflitos relacionados aos países vizinhos também moldam outra particularidade que é favorável ao desenvolvimento tecnológico. É custosa a exportação de produtos volumosos, mas é fácil alcançar mercados distantes nas áreas de software, telecomunicações, informática e aplicativos, que representam mais de 50% das exportações do país.
Durante algumas semanas por ano, os reservistas voltam às suas unidades para treinamento, e isso fortalece ainda mais os laços de amizade e colaboração entre eles.
Outra particularidade observada no IDF, é uma atitude de reconhecimento da importância do aprendizado decorrente dos erros ocorridos nos treinamentos. Tal prática também é preciosa no universo das startups, pois, como em qualquer outro lugar, a maior parte delas desaparece, mas seus fundadores, em vez de serem marginalizados pela sociedade, aproveitam sua experiência para criar novos projetos com maiores chances de sucesso.
Existe uma ampla diversidade em termos de renda, raça, língua e origem no país, o que é altamente positivo para o ambiente de inovação.
Na sua fundação, contabilizavam cerca de 800 mil habitantes e, atualmente, pouco mais de nove milhões e parte relevante deste crescimento se deu com a política de incentivo à imigração. Imigrantes, por definição, são tomadores de risco que não têm dificuldade para recomeçar e, portanto, é uma nação de empreendedores.
Esse povo possui um desejo insaciável de argumentação e tem liberdade para manter discussões construtivas com seus superiores, estejam eles na esfera militar, empresarial, escolar, política, familiar, governamental ou religiosa.
Finalmente, encontra-se lá uma profícua integração entre governo, universidades e empresas, com o objetivo de promover inovação e empreendedorismo.
O governo oferece financiamento para as startups em sua fase inicial e investe em aceleradoras, sendo que, com algumas delas, também há parceria com as universidades de ponta do país, como o Technion, e as Universidades de Tel Aviv e Hebraica de Jerusalém.
E, não por acaso, lá existem mais cientistas per capita e estas universidades possuem organizações para a transferência de tecnologia, que fazem a ponte entre a pesquisa acadêmica e o setor empresarial.
A partir de tecnologias desenvolvidas para a área de defesa, são criadas startups com serviços e produtos que atendem o mercado privado.
Existe, portanto, naquela nação, um ambiente onde os empresários prosperam, por um lado, contando com segurança jurídica, democracia, economia de mercado e estabilidade institucional. E, por outro, são beneficiados com uma cultura não hierárquica e informal, em um território com muitas adversidades e escassez de recursos naturais.
Esse ambiente é propício para gerar altos níveis de adaptação, empreendedorismo, criatividade e inovação. A nós, fica o questionamento, será que o Brasil pode algum dia tornar-se um país realmente inovador, como é Israel?
Hamilton Leite é mestre em Engenharia Civil e head SP da Brain Inteligência Estratégica
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