"A falta de mão de obra qualificada e a modernização do setor imobiliário" - O Estado de S.Paulo - Cad. Negócios - pág. B13
A falta de mão de obra qualificada e a modernização do setor imobiliário
Escassez de profissionais capacitados tornou-se um dos principais entraves da construção civil

Por Guilherme Cardoso de Lucca
O Brasil tem enfrentado hoje falta de mão de obra especializada no setor da construção civil em todos os seus níveis, obviamente boa parte por conta do aquecimento da economia e do setor, puxado pela alta procura por imóveis para compra.
Essa demanda se deve, principalmente, à pandemia, quando as pessoas buscaram adequar seus espaços à uma nova necessidade e aos juros baixos, favorecendo o financiamento para aquisição do imóvel.
No entanto, mais recentemente, a escassez de profissionais capacitados tornou-se um dos principais entraves da construção civil e do mercado imobiliário, segundo o Instituto Brasileiro de Economia da FGV, que apontou, inclusive, uma variação positiva no INCC-M no último índice de setembro, justamente puxado por esse elemento.
O INCC-M desacelerou até agosto, voltando a crescer um pouco em setembro e outubro, mas continua abaixo da taxa de 2022: 3,37% contra 10,89%. Materiais e equipamentos registram variação de -0,49%. Já a mão de obra, que agora tem dados dos serviços, apresenta variação de 6,64% no ano e de 7,14% em 12 meses.
O INCC-M de outubro registra variação de 0,20%, puxado pela mão de obra (0,29%). No acumulado do ano, São Paulo registra aumento de 2,4% no acumulado de 2023, devido ao aumento da mão de obra, e com os materiais apresentando quedas de preços.
Empresários estão preocupados em como atender a demanda futura e isso se dá por diversos fatores, como, por exemplo, técnicos que são atraídos por outros setores em busca de retorno mais rápido. E, na minha opinião, eles não estão habilitados a lidar com os avanços e novas tecnologias, o que torna a formação mais complexa, desestimulando o profissional, que precisa de um conhecimento e preparo ainda maior. A evolução da tecnologia é importante, mas a perícia de um responsável capacitado é essencial para acompanhar o processo.
Num país com um déficit habitacional e cerca de 7 milhões de moradias, é preciso olhar com mais atenção a esse ponto, pois ele pode, na extremidade da cadeia, provocar escassez de oferta e aumento de preços.
Recentemente, no congresso mundial da Fiabci, em Miami (EUA), pudemos trocar experiências com profissionais de todo o mundo, mostrando que determinados eventos, como guerras e pandemias, tendem a acelerar novas experiências e provocar mudanças comportamentais e mercadológicas muito acentuadas.
Conseguimos acompanhar de perto como isso influenciou no mercado de Miami, que hoje está atrás apenas de Dubai, e esse aquecimento já se mostra perceptível no preço de venda dos imóveis. De acordo com a NAR (National Association of Realtors), hoje, é necessário cerca de 5 milhões de residências nos EUA no Brasil nosso déficit e de cerca de 7 milhões de residências
Empresas têm buscado constantemente novas tecnologias de obras em todo mundo, com empreendimentos que congreguem todo o tipo de uso, adaptação conforme demanda de mercado e seu impacto na cidade, introdução de soluções tecnológicas, construções modulares, impressão 3D, reuso de materiais, redução de acidentes e de desperdício na execução de obras, aumento da produtividade, velocidade na entrega e investimentos em sustentabilidade.
Mas, ao final, o que pudemos apreciar é que, para suprir falta de mão de obra, é fundamental um planejamento combinado entre governo, institutos acadêmicos e projetos de capacitação, segundo a própria RICS (Royal Institution of Chartered Surveyors), por exemplo, em recente pesquisa na Índia, onde o mercado emprega cerca de 71 milhões de trabalhadores.
E, para concluir, outro recurso que vai colaborar e muito para suprir essa demanda, não só do mercado imobiliário, mas em todos os setores, é a reabsorção da mão de obra para pessoas acima dos 55 anos, de acordo com pesquisa da consultoria internacional Brain & Company, o que pode gerar cerca de 150 milhões de novos postos de trabalho em países como Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido.
Guilherme Cardoso de Lucca é sócio da Predial de Lucca e vice-presidente da FIABCI-BRASIL

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